domingo, 1 de novembro de 2026 Dr. João Paulo Cristofolo Jr. · CRM-SP 222189
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Opinião · Produtividade e foco

Empresas pagam exame de sangue dos funcionários para economizar. O que 56 estudos acharam?

A empresa chama uma equipe, colhe o seu sangue, mede colesterol e glicose, e promete que isso vai baixar custos e melhorar o rendimento de todo mundo. Muitos empregadores, sobretudo nos Estados Unidos, fazem isso há mais de 20 anos. Uma revisão recente juntou tudo o que se publicou e deixou uma pergunta mais interessante do que parece: o ganho vem do exame ou de outra coisa?

A revisão saiu na BMC Health Services Research, assinada por Swadźba, Makuch e Agrawal. É uma revisão sistemática, isto é, uma busca organizada, com regras registradas antes, para reunir todos os estudos que cumprem os mesmos critérios. Os autores acharam 56 estudos de programas de saúde no trabalho que incluíam exame de sangue.

Eram trabalhadores adultos de fábricas, hospitais, bancos e escolas. Dos 56 estudos, 35 foram feitos nos Estados Unidos.

O resultado de manchete parece uma festa. Os 20 estudos que calcularam o retorno sobre o investimento, quanto a empresa recebe de volta para cada real gasto, deram resultado favorável, todos eles. Nos custos de saúde, 21 de 29 estudos também apontaram economia.

Parece a prova que os departamentos de recursos humanos esperavam.

Só que os próprios autores desconfiam de um resultado tão unânime. Quando todo estudo acha ganho, inclusive os mais fracos, a pergunta de praxe é se o ganho é real ou se só os estudos favoráveis chegam a ser publicados. Na leitura deles, essa unanimidade combina mais com relato seletivo e com fatores que embaralham a conta do que com um retorno firme.

Há uma razão concreta para a cautela. Dos 56 estudos, só 6 eram ensaios com sorteio entre quem recebe o programa e quem não recebe, e nenhum deles foi avaliado como de baixo risco de erro. O restante era, na maior parte, observacional: estudos que olham para o passado ou comparam “antes e depois” sem grupo de comparação.

Pense em avaliar uma academia comparando quem se matriculou com quem não se matriculou. Quem se matricula já costuma ser mais saudável e gastar menos com médico, então parte do “efeito” da academia é só o tipo de gente que entra.

Os autores lembram que um ensaio feito na Universidade de Illinois mostrou algo parecido: boa parte da economia vista em estudos de observação vinha de funcionários mais saudáveis que escolhem participar. E um grande ensaio com uma rede de atacado americana, o BJ’s, não achou efeito nos gastos de saúde nem nas medidas clínicas aos 18 meses.

Mas há um achado que muda a pergunta. Os resultados favoráveis se concentraram em programas em que, depois do exame, alguém acompanhava o funcionário: um coordenador, uma enfermeira ou um médico. Todos os 20 estudos de retorno vinham desses programas, e 19 dos 21 com economia de custos também.

Dos 14 programas que só entregavam o resultado do exame, nenhum calculou retorno.

Como escrevem os autores, detectar não é intervir. O exame descobre o colesterol alto, mas quem resolve é o tratamento, e o tratamento depende de alguém ajudar o funcionário a ir atrás dele.

Eu leio isso como uma troca de pergunta. Em vez de “vale pagar o exame?”, talvez a pergunta útil seja “vale pagar quem ajuda a pessoa a agir sobre o resultado?”. É uma leitura minha, e os próprios autores a apresentam só como hipótese a ser testada, porque os programas com acompanhamento também foram os que mais mediram e relataram retorno, muitas vezes avaliados por quem os patrocinava.

E a produtividade, que dá nome à promessa? É a parte menos testada.

As faltas ao trabalho tiveram resultado inconsistente, com 14 de 23 estudos favoráveis e os mais bem feitos divididos entre ganho e nada. O presenteísmo, que é ir trabalhar doente e render menos, foi medido em apenas 7 estudos, e só 5 dos 56 usaram um questionário validado para medir produtividade.

Os limites pesam. A maioria dos estudos é de observação, feita nos Estados Unidos e sob o ponto de vista do empregador.

Lá, a empresa paga boa parte dos custos de saúde dos empregados, o que dá incentivo para economizar. Num país com saúde pública ou universal, como o Brasil, o raciocínio econômico pode ser outro.

Os autores também avisam que tudo isso são associações, não causas. Programas só com exame quase nunca tiveram o dinheiro avaliado, então a comparação entre os dois tipos mostra o que foi estudado tanto quanto o que funciona.

Dois dos autores declaram ligação com empresas: um é sócio e funcionário da Labplus, que desenvolve um dispositivo médico, e outro é sócio e funcionário da Housemed. O dispositivo não foi usado na revisão, e o financiamento veio de fundos europeus, sem participação do financiador no trabalho.

O que fica: em 56 estudos, programas de exame de sangue no trabalho quase sempre aparecem com resultado financeiro favorável, mas essa unanimidade é difícil de separar de viés, e o ganho aparece quase só quando há acompanhamento depois do exame. Ainda não se sabe se esse acompanhamento é o que gera a economia, e o teste que falta são ensaios sorteados, fora dos Estados Unidos, com medida validada de produtividade. Mesmo assim, ver a pergunta deslocar do exame para o que se faz com ele é um passo real, e a minha aposta é que o assunto da saúde no trabalho passe a ser o que acontece depois do check-up.

Os números, para quem quer conferir

  • 56 estudos (58 relatos), 2.232 registros encontrados em 5 bases e arquivos da OMS e da OIT, de 2000 a maio de 2026.
  • 35 estudos nos Estados Unidos (62,5%); 39 de 56 sob o ponto de vista do empregador.
  • Amostra mediana: 3.444 participantes; acompanhamento mediano: 24 meses.
  • Desenhos: 19 coortes retrospectivas, 13 antes e depois sem controle, 6 ensaios randomizados, 6 quase-experimentais, 5 transversais, 4 coortes prospectivas, 3 modelos.
  • Ensaios randomizados: 4 com “algumas preocupações” e 2 com alto risco de viés; nenhum de baixo risco.
  • Retorno sobre o investimento: 20 de 20 favoráveis; razões de cerca de 1:1 a quase 16:1, concentradas entre cerca de 1,5:1 e 4:1.
  • Custos de saúde: 21 favoráveis, 5 sem efeito, 2 desfavoráveis, 1 misto (29 estudos).
  • Faltas ao trabalho: 14 favoráveis, 6 sem efeito, 2 mistos, 1 desfavorável (23 estudos).
  • Presenteísmo: 4 favoráveis, 3 sem efeito (7 estudos). Rotatividade: 1 estudo, sem efeito.
  • Acompanhamento após o exame: coordenador em 35 estudos, só exame em 14, médico em 5, autogerenciado em 2.
  • Entre os estudos de qualidade moderada ou alta, o retorno ficou favorável em 13 de 13.
  • Instrumento validado de produtividade: 5 de 56 estudos.
  • Triagem e extração de dados tiveram apoio de modelos de linguagem, com conferência humana de cada decisão, segundo os autores.

Fontes

  1. Swadźba D, Makuch S, Agrawal S. Economic and productivity outcomes of workplace health programmes incorporating blood-based laboratory screening: a systematic review. BMC Health Services Research. 29 set. 2026. DOI: 10.1186/s12913-026-15428-8. Disponível em: doi.org

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individualizado. Não se automedique e procure sempre um profissional de saúde.