Opinião · Saúde mental
Um médico de UTI toma 472 decisões por plantão. Cansa o tanto ou o jeito como elas chegam?
Pense em quantas escolhas você faz entre acordar e o almoço. Agora imagine fazê-las sobre pessoas muito graves, sem poder sair da sala. Uma equipe alemã fez essa conta em tempo real numa UTI (unidade de terapia intensiva), e o que descobriu sobre o desgaste do médico merece ser contado com calma.
O estudo saiu em 17 de outubro na Critical Care, assinado por Hieber, Schiessl, Herrmann e colegas, do hospital universitário de Regensburg. Um estudante de medicina que já tinha sido enfermeiro de UTI acompanhou 5 médicos, 3 experientes e 2 residentes, ao longo de 38 plantões de 12 horas, entre outubro e dezembro de 2025.
A cada decisão, ele apertava um contador no celular. Ao todo foram 456 horas de observação e 17.953 decisões registradas.
Dá uma média de 472 decisões por plantão, ou uma a cada minuto e meio, conta minha sobre os números do artigo. Quase 9 em cada 10 eram pequenas, como suspender um remédio de um paciente estável. Cerca de 1 em cada 10 era média, como tirar o tubo de respiração depois de um teste bem-sucedido.
Decisões grandes, como ligar uma máquina que oxigena o sangue fora do corpo num choque grave, foram só 8 em todo o estudo. Essa classificação foi criada pelos próprios pesquisadores e ainda não foi validada por outros.
Aqui entra a ideia que dá nome ao tema: a fadiga de decisão, a tendência de escolher o caminho menos trabalhoso à medida que a carga mental se acumula. Uma revisão citada pelos autores achou o efeito em 45% dos estudos com profissionais de saúde e não achou nos outros 55%. A ciência ainda discute se isso é real.
O primeiro resultado vai na direção esperada. Nos plantões em que o ritmo de decisões foi mais alto, o médico terminou o dia com mais fadiga de decisão. Mas, em média, de manhã para a noite o cansaço medido mudou pouco, sem piora clara.
Agora a virada. Os autores também mediram o quanto as decisões vinham juntas no tempo, em rajadas, em vez de espalhadas. E o humor acompanhou o formato do plantão mais do que o tamanho.
Os plantões com decisões em rajadas terminaram com humor melhor. Os plantões calmos e uniformes, os de menor exigência, tiveram os piores valores de humor.
Parece ao contrário, não? Eu leio assim, como aposta e não como dado: um plantão com desafio de verdade pode engajar, e um plantão morno pode deixar a cabeça vagar. Os autores propõem explicações parecidas, como um estado de concentração intensa e pequenas pausas entre as rajadas, e dizem que nenhuma foi medida.
O freio vem junto com o dado. Os plantões calmos e uniformes foram só 5 dos 38, e numa análise alternativa a vantagem dos plantões ocupados sobre eles não se sustentou.
Casos mais graves, equipe do dia e sono da véspera não foram registrados.
As pausas também surpreendem. Os médicos fizeram em média 2,5 pausas por plantão, somando 77,8 minutos, e nem o número nem a duração se associaram ao cansaço ou ao humor.
Mas eles ficaram na UTI o tempo todo, atendendo telefone e chamados. Uma pausa sem desligar talvez não seja pausa.
Houve ainda um sinal sobre interrupções. Depois de plantões com mais interrupções, os médicos ficaram menos confiantes ao resolver um caso clínico de teste: a cada 10 interrupções a mais, caiu 0,29 ponto numa escala de 1 a 5. É uma diferença pequena, vista em poucos médicos.
Quando o estudo não acha associação, isso não prova que ela não existe. Foram 5 médicos e 38 plantões, e os próprios autores chamam tudo de exploratório. O medidor de rajadas foi adaptado de um uso original diferente, e os intervalos de confiança das pausas e das interrupções eram largos demais para descartar efeito.
Há ainda um detalhe que pede cuidado. O especialista mais experiente teve o menor cansaço de decisão, mas com 3 especialistas não dá para separar experiência de temperamento ou de escala. É hipótese.
O financiamento declarado foi nenhum, e os autores não declararam conflito de interesses. O estudo foi registrado antes de começar a coleta, o que protege contra ajustar a análise depois.
A leitura que faço disso é que muda a pergunta. Escalas costumam contar horas e pacientes, e este estudo sugere olhar também o ritmo, as interrupções e se a pausa é de verdade.
É uma leitura minha, e o estudo não testou essa troca.
O começo, porém, já é real. Segundo os autores, é a primeira vez que se acompanhou o trabalho de médicos de UTI decisão por decisão, em plantões inteiros. Minha aposta é que, quando medir isso virar rotina, vamos organizar o trabalho médico pelo formato do dia e não só pelo tamanho.
Resumo: num estudo pequeno e exploratório, mais decisões por minuto se associaram a mais fadiga no fim do plantão, enquanto o formato do trabalho pesou mais no humor, com os plantões mais calmos saindo pior. Ainda não se sabe se isso muda a qualidade das decisões nem se os achados se repetem em outros hospitais.
Os números, para quem quer conferir
- Participantes: 5 médicos (2 residentes e 3 especialistas), 1 residente excluído por ausência após 4 plantões
- Plantões: 38 de 12 horas, 456 horas de observação
- Decisões: 17.953 no total (16.107 pequenas, 1.831 médias, 8 grandes, 7 de fim de vida)
- Média por plantão: 472 decisões (de 366 a 589), cerca de 3,27 por intervalo de 5 minutos
- Ritmo mais alto e fadiga no fim do plantão: 4,13 pontos a mais na escala de 10 a 50, para cada decisão a mais por intervalo (intervalo de confiança de 95%: 1,18 a 7,14)
- Mudança média da manhã à noite: fadiga +0,74 (de -0,71 a 2,18), sem piora clara
- Plantões por tipo: 5 calmos e uniformes, 14 calmos em rajadas, 14 ocupados e uniformes, 5 ocupados em rajadas
- Pausas: 2,5 por plantão, 77,8 minutos no total
- Interrupções: 0,29 ponto a menos de confiança a cada 10 a mais (p = 0,012)
- Residentes: 14,3% das decisões médias ou maiores; especialistas: 7,7%
- Registro prévio: DRKS00037564, em 27/08/2025
Perguntas frequentes
Quantas decisões um médico de UTI toma por plantão?
Num estudo do hospital universitário de Regensburg, na Alemanha, publicado na Critical Care em 2026, um observador registrou 17.953 decisões de 5 médicos em 38 plantões de 12 horas, uma média de 472 por plantão. Quase 9 em cada 10 eram pequenas, e só 8 foram classificadas como grandes. A classificação foi criada pelos próprios pesquisadores.
O que é fadiga de decisão?
É a tendência de escolher o caminho menos trabalhoso à medida que a carga mental se acumula. Segundo uma revisão citada pelos autores do estudo, o efeito apareceu em 45% dos estudos com profissionais de saúde e não apareceu nos outros 55%; a ciência ainda discute se ele é real.
O ritmo do plantão mudou o cansaço e o humor dos médicos?
Nos plantões com ritmo de decisões mais alto, os médicos terminaram com mais fadiga de decisão. Já o humor acompanhou mais o formato do plantão do que o tamanho: plantões com decisões em rajadas terminaram com humor melhor, e os calmos e uniformes tiveram os piores valores. Esses plantões calmos foram só 5 de 38, e numa análise alternativa a diferença não se sustentou.
Dá para tirar conclusões firmes desse estudo?
Não. Foram 5 médicos e 38 plantões num único hospital, e os autores chamam o trabalho de exploratório. Gravidade dos casos, equipe e sono da véspera não foram registrados, e ainda não se sabe se o ritmo do plantão muda a qualidade das decisões.
Fontes
- Hieber F, Schiessl L, Herrmann A, et al. Decision volume and temporal workload structure as dissociable correlates of fatigue and mood in intensive care physicians: a real-time observational study. Critical Care. 17 out. 2026. DOI: 10.1186/s13054-026-06249-6. Disponível em: doi.org
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individualizado. Não se automedique e procure sempre um profissional de saúde.